quarta-feira, 19 de março de 2008

Entrega de um pedido sem parágrafos


Era uma vez uma menina, e como tantas outras pessoas, ela gostava de guardar objetos, objetos especiais. Em sua casa havia uma estante. Não uma estante comum, nela a menina guardava as coisas mais importantes que possuía. Lá havia vários vasos de porcelana, todos muito bonitos. A garota adorava-os, todos os dias passava seus olhos sobre eles e enchia-se de alegria. Eram seu maior orgulho. Todos eram especiais, cada um lhe supria uma necessidade diferente, juntos lhe faziam mais feliz. Mas dentre eles havia um, um que era único, aquele era especial. Ela nunca soube explicar o porquê, mas ele ocupava um lugar de destaque diante dos outros. Dentro dela. Alguma coisa nele a fazia mais feliz, olhar pra ele lhe deixava confiante. Ela sentia que o teria para sempre, não importava o que acontecesse. Mas sempre chega o dia em que acaba importando. Um vento muito forte tomou conta da sala e atingiu a estante. Atingiu a maior prateleira. Nenhum dos outros sentiu, mas seu lindo vaso titubeou. Ela chegou a tempo, mas não pôde fazer nada. Ele balançou, balançou e caiu. Caiu no chão diante dela, mas ela já não olhava mais, cobrira o rosto, só lhe foi percebido o barulho. Ele havia quebrado, não tinha outra explicação. Mas então ela se aproximou dele, precisava recolhê-lo. Foi então que percebeu. Ele não havia quebrado, mas rachara. A ela só coube o poder de constatar, já havia acontecido. Mas sua tristeza tornou-se ainda maior. Decepção. Não porque o vaso havia preferido o chão à estante dela. Mas por cair, e por rachar. Porém ela não podia culpá-lo, afinal não fora culpa dele o aparecimento do vento. Mas fora sua a opção de despencar da prateleira. Ele teve a escolha: deixar-se levar pela brisa ou segurar-se. E isso ela não podia mudar. Então ela o recolheu e o pôs de volta na estante, de volta ao lugar que ocupava antes, o centro. Porém nela algo havia mudado, era muito difícil aceitar que ele não se importava com o zelo que ela lhe tinha, ao ponto de não achar que ela ficaria magoada com o descaso dele, não achar que tinha sido sua culpa ter despencado, sua escolha ter rachado. Ele aproveitara a oportunidade dada pelo vento para provar de uma coisa que há muito era seu desejo. Um desejo que teria conseqüências, isso era fato. Talvez se ele tivesse reprimido essa vontade, se apenas tivesse continuado na estante, sem magoá-la e assim sendo o favorito.. Mas assim os dias passaram. E em cada um deles a menina passava pela estante e sempre admirava todos os vasos, mas seus olhos sempre caíam sobre aquela feia rachadura. Era inevitável passar por ali e não vê-la, de repente ela era ponto mais chamativo de toda a sala. Até que a garota achou melhor retirá-lo do centro da estante e colocá-lo na ponta da prateleira, quem sabe ali sua atenção não seria tão solicitada pelo passado? E assim passaram-se mais dias. Muitos dias. A menina agora era uma mulher, aliás, já possuía netos. E eles adoravam correr por sua casa, pular nas camas e subir nas estantes, e essa, essa era a atividade favorita. Mas a vovó não deixava, nunca havia deixado tocarem naquela estante. Ela conservava-a, ainda era possível ver vários vasos lá, embora agora outras coisas, quase tão belas ou especiais, também tivessem espaço entre aquelas prateleiras. Mas discretamente, ali no meio, entre todos aqueles objetos, havia um vazio, faltava alguma coisa. Talvez vovó não notasse, afinal a idade chegara. Quem sabe ela não tivesse percebido que ali, bem no centro da prateleira, havia um espaço onde caberia exatamente mais um vaso, tal como aqueles tantos outros? Mas aquela senhora não parecia notar, ela raramente era vista preocupada, afinal vivia muito bem, sua longa história agora merecia descanso. E por merecimento sentiu seu último suspiro. Longo suspiro, como aqueles de quem sente saudade. Assim ela se foi.


E foi quando arrumaram suas coisas que encontraram. Lá dentro, escondido no fundo de seu armário, dentro de uma caixa, havia um embrulho muito bem conservado, como se fosse refeito todos os dias. Dentro havia uma porcelana, muito fina, muito delicada, que provavelmente valia muito. Era até parecida com outras que a vovó costumava guardar na prateleira da sala, mas essa era diferente, ela tinha uma beleza mais espontânea, não era tão elaborada como as porcelanas habituais. Mas estava rachada, alguém percebeu. E foi assim que aquele jovem entendeu. Uma vez, como todo netinho caçula em sua mania de querer saber tudo, havia notado o desfalque na estante e perguntado à sua vó sobre o motivo. 'O que um dia houve ali, hoje não há mais' - simples as palavras da resposta que ela lhe deu. Apenas isso. Na época ele não entendera, pensara que ela havia jogado fora ou perdido o que quer que esteve ali, mas agora podia compreender. Sua avó jamais havia se livrado daquele pertence, ela apenas o retirara de sua convivência diária, talvez para que não se obrigar a ver a rachadura tão freqüentemente - quem sabe uma tentativa de fuga de dolorosas lembranças? - e o guardara, sem que ninguém soubesse, mas não se desfizera dele. E o neto entendeu que esssa fosse talvez a maior ligação que poderia existir, afinal, mesmo entre imperfeições, ela jamais conseguira deixar de amá-lo.



Há coisas que só algumas pessoas entendem, talvez seja o caso deste texto. :D