
O tempo. Como se mede o tempo? Afinal, seria ele uma grande idéia abstrata que objetiva primordialmente organizar nossas vidas, ou simplesmente um obstáculo impertinente que insiste em atrapalhar os detalhes prazerosos do cotidiano? Bom, se minha opinião for de validez para o assunto, lhe afirmo que dou mais crédito à segunda opção.
Motivo? Acredite, não é apenas mais uma reflexão sem sentido de um desses calouros que acha o fim do mundo ter que perder quase um semestre inteiro diante de milhares de livros, autores até então desconhecidos e escritos aparentemente em código que provavelmente serão de pouca ou nenhuma utilidade a partir do resto do período acadêmico. Não, imagine. É uma idéia totalmente fundamentada, pois, acredite, esse pensamento não é só meu.
Não tenho como objetivo dizer que o tempo é uma criação inútil, entretanto. Apenas pretendo explicitar o quanto ele costuma ser mal aplicado.
É fato que todos nós, ao entrarmos na Faculdade de Direito do Recife, nos deparamos com os mais diversos tipos de pessoas, idades e personalidades. Simultâneo a isso, passamos a lidar com autores, teorias, dogmas e livros mofados que, segundo aqueles que nos instruem, são a base de toda a nossa carreira acadêmica. Em meio a isso, sofremos diariamente a perda considerável de minutos que nos levam à quase inalcançável cidade universitária para que aprendamos sobre mais pessoas, mais teorias e tenhamos mais aulas sobre assuntos que embora não sejam o foco de nosso curso, dizem serem necessários a nossa formação intelectual. É aí que, diante de todo esse esforço, essa correria diária e esse armazenamento quase impossível de todas essas informações, nos lembramos que nosso curso é, todavia, direito.
E é nessa hora que os pensamentos de Kelsen, as fórmulas sobre oferta e demanda e Aristóteles, somados ao vazio de nossos bolsos causado pelas intermináveis xérox, nos vêm a cabeça e se manifestam em uma pergunta: afinal, por que tudo isso?
E não, isso não é uma pergunta retórica fundamentada na preguiça. É só que, bem, é no Brasil que vivemos, certo? Diante dessa sociedade ainda não-madura e dependente de sistemas alopoiéticos que se apóia em formas de direito alternativo para que se mantenha funcionando, às custas da ilusão de um direito neutro e técnico que se sobressai fundamentalmente da vontade de um judiciário que, por sua vez, a cada dia sofre mais intensamente com o problema da legitimação de si mesmo gerado pela cultura brasileira arraigada pela ideologia de predominância do desrespeito às normas... Enfim, toda aquela história. É, é o “jeitinho”. É então, meu caro estudante de direito, que você se entrega a uma reflexão na qual apenas um minuto lhe é suficiente para que se arrependa de todo o tempo que você perde e tem perdido entre colégios particulares e cursinhos pré-vestibular, fichamentos e tudo o mais...
Afinal, por que tanto tempo perdido, se no futuro o que lhe valerá de fato será a sua agenda telefônica e não seu curriculum vitae? É duro constatar isso no primeiro ano de faculdade e ter que conformar-se a essa rotina desprovida de objetivo prático por mais cinco anos. Contudo, não se deve jamais esquecer que, embora nosso tempo ande mal preenchido ultimamente, nem tudo está perdido. Nunca esqueça de que os colegas de hoje serão o judiciário de amanha, meu caro. Portanto, segue um conselho: um tempo otimizado durante a faculdade de direito vale mais do que qualquer exemplar da “Teoria Pura”. Acredite, aquela fábula que conta que os melhores alunos sempre têm mais chance de serem bem-sucedidos simplesmente esbarra no contexto social brasileiro. Partindo daí, eu acabo por preferir outra máxima, por sinal, muito ouvida por mim ultimamente, afinal, depois de tal análise, não se pode negar que, sob todas as evidências, o mundo é, realmente, dos espertos.